"Sentei-me num banco a ler os jornais do dia, mas passava as linhas sem as ver, porque era tão grande a emoção de estar ali sentado naquela diáfana manhã de Outono, que não conseguia concentrar-me. Pouco depois ressoou o tiro de canhão do meio-dia, as pombas voaram, espantadas, e os carrilhões da Catedral lançaram no ar as notas da canção mais comovedora de Violeta Parra: Gracias a la vida. Era superior às minhas forças. Pensei em Violeta, pensei nas suas fomes e nas suas noites sem tecto em Paris. Pensei na dignidade a toda a prova, pensei que sempre teve um sistema que a negou, que nunca sentiu as suas canções e que troçou da sua rebeldia.Tinha sido preciso que um presidente glorioso morresse no meio da sua luta, que o Chile padecesse o martírio mais sangrento da sua história e que a própria Violeta Parra tivesse de morrer pela sua mão para que a pátria descobrisse as profundas verdades humanas e a beleza do seu canto. Até os carabineiros a escutavam com devoção sem fazer a menor ideia de quem era ela, nem o que pensava, nem por que cantava em vez de chorar, nem quanto os teria detestado a eles se estivesse estado ali a sofrer o milagre daquele Outono magnífico."
Gabriel García Marquez, in "A Aventura de Miguel Littín Clandestino No Chile"
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