30.11.11

o tempo é a minha náusea

"Peguei na caneta e tentei pôr-me de novo a trabalhar; estava farto, até à raiz dos cabelos, de meditações sobre o passado, sobre o presente, sobre o mundo. Só pedia uma coisa: que me deixassem acabar o meu livro em paz. Mas, quando o meu olhar incidia sobre o caderno de folhas brancas, impressionou-me o seu aspecto e fiquei, de caneta no ar, a contemplar esse papel deslumbrante: como era rijo e vistoso, como estava presente! Não havia nada nele que não fosse presente. As letras, que eu acabava de lá traçar, ainda não tinham secado e já não me pertenciam."

Jean-Paul Sartre, in A Náusea.

Que saudades de ter tempo para voltar a ler. Já não ponho os pés numa biblioteca, para requisitar um livro, há muito tempo!

O tempo e a morte são, efectivamente, as nossas únicas certezas intocáveis.

29.11.11

27.11.11

first things first

to the death.

também são exilados aqueles que ficaram

"Sentei-me num banco a ler os jornais do dia, mas passava as linhas sem as ver, porque era tão grande a emoção de estar ali sentado naquela diáfana manhã de Outono, que não conseguia concentrar-me. Pouco depois ressoou o tiro de canhão do meio-dia, as pombas voaram, espantadas, e os carrilhões da Catedral lançaram no ar as notas da canção mais comovedora de Violeta Parra: Gracias a la vida. Era superior às minhas forças. Pensei em Violeta, pensei nas suas fomes e nas suas noites sem tecto em Paris. Pensei na dignidade a toda a prova, pensei que sempre teve um sistema que a negou, que nunca sentiu as suas canções e que troçou da sua rebeldia.Tinha sido preciso que um presidente glorioso morresse no meio da sua luta, que o Chile padecesse o martírio mais sangrento da sua história e que a própria Violeta Parra tivesse de morrer pela sua mão para que a pátria descobrisse as profundas verdades humanas e a beleza do seu canto. Até os carabineiros a escutavam com devoção sem fazer a menor ideia de quem era ela, nem o que pensava, nem por que cantava em vez de chorar, nem quanto os teria detestado a eles se estivesse estado ali a sofrer o milagre daquele Outono magnífico."

Gabriel García Marquez, in "A Aventura de Miguel Littín Clandestino No Chile"

notas a la tercera edición

"Quisiera desarrollar la idea de que el hombre sano no tiene ideas. A veces pienso que las ideas religiosas, morales, sociales, políticas, no son sino manifestaciones de un desequilibrio del sistema nervioso (...) Las ideas son un atavismo - algún día se reconocerá -, jamás una cultura y menos aún una tradición. La cultura y la tradición del hombre, como la cultura y la tradición de la hiena o de la hormiga, pudieran orientarse sobre una rosa de tres solos vientos: comer, reproducirse y destruirse. La cultura y la tradición no son jamás ideológicas y sí, siempre, instintivas. (...) Los biólogos, sagazmente, le llaman instinto. Quienes negan o, al menos, relegan al instinto - los ideólogos -, construyen su artilugio sobre la problemática existencia de lo que llaman el "hombre interior", olvidando la luminosa adivinación de Goethe: está fuera todo lo que está dentro.
Algún día volveré sobre la idea de que las ideas son una enfermedad.
(...)
No merece la pena que nos dejemos invadir por la tristeza. La tristeza también es un atavismo."


Cela, José Camilo, La Colmena

when I am dead, my dearest