17.9.13


Tal como todas as outras noites, entregava-se a esta, sem nada para oferecer. Era um homem de pouca sorte, mas astuto e impecável nas suas afirmações. Existia consoante o tempo, de acordo com as vozes na sua cabeça.  Ainda guardava com ele o livro que a mulher lhe deu no seu aniversário, há sete anos. Na verdade, nunca chegou a lê-lo; não teve a coragem  de o devorar, com medo de ver o rosto dela em cada página. Ela já ali não estava.
Esta noite já não queimou a vela, não fumou o seu cigarro e tão pouco se atirou às palavras, pois não queria entregar-se a nada. Apenas e só; estava dominado pela intempérie e pelos ecos surdos das suas ideias, voláteis e maciças vozinhas. Era o escritor que hoje não queria sê-lo e que simplesmente se limitou ali a existir, a dissecar o silêncio e a sua solidão. Não sobrava mais nada, não havia lugar para a razão ou para o medo. Do lado de lá da sua janela, a paisagem sobrevivia à custa de um roseiral bravo e de duas pequenas macieiras, tudo em sofrido contraste com o seu quarto bafiento, cujas paredes já não testemunhavam qualquer inquietude ou satisfatória alegria.
Deitou-se na cama, ainda com os lençóis por fazer, e apercebeu-se da dor absurda que esta realidade transporta. Nada que ele nunca tivesse pensado antes, apenas nunca o tinha levado para a cama. 

Imagem: O beijo, de Gustav Klimt

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