24.9.13

the call of Cthulhu

"A coisa mais misericordiosa do mundo, acho eu, é a incapacidade da mente humana correlacionar tudo o que ela contém. Vivemos numa plácida ilha de ignorância em meio a mares tenebrosos de infinidade, e não estávamos destinados a chegar longe. As ciências, cada uma a puxar para o seu próprio lado, causaram-nos poucos danos até agora, mas algum dia a junção das peças do conhecimento disperso descortinará visões tão terríveis da realidade e da nossa pavorosa posição dentro dela que só nos restará enlouquecer com a revelação ou fugir da iluminação mortal para a paz e a segurança de uma nova idade das trevas."

H. P. Lovecraft, in "O chamado de Cthulhu"

17.9.13


Tal como todas as outras noites, entregava-se a esta, sem nada para oferecer. Era um homem de pouca sorte, mas astuto e impecável nas suas afirmações. Existia consoante o tempo, de acordo com as vozes na sua cabeça.  Ainda guardava com ele o livro que a mulher lhe deu no seu aniversário, há sete anos. Na verdade, nunca chegou a lê-lo; não teve a coragem  de o devorar, com medo de ver o rosto dela em cada página. Ela já ali não estava.
Esta noite já não queimou a vela, não fumou o seu cigarro e tão pouco se atirou às palavras, pois não queria entregar-se a nada. Apenas e só; estava dominado pela intempérie e pelos ecos surdos das suas ideias, voláteis e maciças vozinhas. Era o escritor que hoje não queria sê-lo e que simplesmente se limitou ali a existir, a dissecar o silêncio e a sua solidão. Não sobrava mais nada, não havia lugar para a razão ou para o medo. Do lado de lá da sua janela, a paisagem sobrevivia à custa de um roseiral bravo e de duas pequenas macieiras, tudo em sofrido contraste com o seu quarto bafiento, cujas paredes já não testemunhavam qualquer inquietude ou satisfatória alegria.
Deitou-se na cama, ainda com os lençóis por fazer, e apercebeu-se da dor absurda que esta realidade transporta. Nada que ele nunca tivesse pensado antes, apenas nunca o tinha levado para a cama. 

Imagem: O beijo, de Gustav Klimt