29.4.09

Palavras Encantadas

Morreram-se-me as vontades. Esqueceu-se o ódio de morrer também.

A minha cabeça explodiu. Rebentou, ironicamente. A alma cá continua soberba na sua totalidade. Só quero, por momentos, deixar o meu corpo flutuar ao ritmo da melodia que me soa a algo grandemente dissimulante. É esse violino que expressa a minha raiva, toda ela intransigente. Afogo-me em palavras que saem por sombras, palavras impetuosamente beatificadas por um falso dickens.
A pulsação dispara naquele segundo de troca de olhares, mói e corrói a minha força, come-me as vontades. Porque não me comeste o ódio também? E porque demora tanto a passar?
Quero mergulhar de cabeça na beatitude da ataraxia, deixar-me levar e simplesmente esperar, esperar até que… a verdade é que já não sei pelo que esperar!
Sei que tenho o peito indelével. Que não vendo a minha alma por mais que o peças. Como odeias a minha perseverança! Como odeias que eu seja à prova de bala!
[Covas abertas no meio do caminho. Atrocidade.]
Aí vem o batuque porta adentro e cai-me o corpo. Sonho acordada. Nada de total de rendição. Por mais que fira não dói, é mágico. É negro.

Exorcismo da Alma

Escrever não custa. Custa é entrar cá dentro e exorcizar os sentimentos. Custa explorar-me a alma, toda ela moldada de sarcasmo e também apologista do pecado. Arranhar o coração com as minhas próprias mãos; levar as mãos à cabeça e gritar; cuspir a doutrina e arrancar as tábuas do chão; elevar o corpo ao mais alto estado de loucura insana; fazer da insónia um simples gesto insondável; espremer o meu espírito até ao pó; arrancar as palavras e ornamenta-las com as terríveis vozearias do inferno; trepar paredes. Quanto a ti, insistes em caminhar a meu lado, sombra imunda, insistes em fazer da minha vida algo que está para além do normal, fazes-me fugir à regra. Ah fode-te, mas fode-te à grande!
Rasteja aí, vá! Quero ver-te a enfrenta-lo enquanto aponto com o dedo em sinal de imposição. Custa, custa mesmo sentir seja o que for. Lidar com o sentimento não é comigo. Essa arte não me foi incutida. Sou fraca e dura de roer. Sou miserável e camaleão. Sou a tua eterna incógnita.
Hoje sofro de falta de palavras, encontrei-as espalhadas pelo chão e nem por isso peguei nelas. Se lá estavam é porque lá queriam estar. Mantenho-as ali e é ali que vão ficar. Não lhes toco, não hoje.

7.4.09

Na Certeza de Que Me Tens

A vida esqueceu-se de mim. Esqueceu-se que eu existo nela e que a tenho só p’ra mim. Filha da puta. Sei ser aquilo que mais ninguém sabe ser, tenho em mim a sementinha da rebeldia. Intrínseca na minha bipolaridade. Ainda ontem acordei do Fim e deparei-me com o meu peito vazio, as lágrimas secas, a parede a testemunhar a luta. Hoje acordo novamente e passeio vagarosamente pela rua com os olhos postos no chão. Não penso, não preciso. Sei a priori que a vida é construída após tanta batalha, após tanta coisa ser dita, após tanto “espetanço” das nossas cabeças na parede. Não dá para hierarquizar sentimentos, não dá! [Se pelo menos a chuva pudesse levar tudo o que em mim não quero...] Está tudo atabalhoado e confuso e não tenho a capacidade de impelir. Pensamento insone que me come, come, e come…
Levanta a cabeça, levanta! Vê. Tudo vazio e fosco. Tudo almas medíocres e olhares sem nada. Dá raiva não dá? Transparência do que vejo.
Visto preto como sinal de luto por tanta merda conhecer e infelizmente viver. Quero deixar-me levar pela indiferença do vento, a inquietude da chuva e magnificência do sol.
Mundo, é certo que me tens de forma gloriosa e indubitável.